Veja aqui quais são as músicas executadas durante o espetáculo: 38 de Noël Rosa, 3 de Wilson Baptista e 1 de Sylvio Caldas. Para ler a letra original na íntegra, clique sobre o título de cada uma.
Primeiro Ato
1. Violões em Funeral (Sylvio Caldas e Sebastião Fonseca)
Vila Isabel veste luto. Pelas esquinas escuto Violões em funeral... Choram bordões, choram primas, Soluçam todas as rimas Numa saudade imortal!
Entre as nuvens escondida Como de crepe vestida A lua fica a chorar... E o pranto que a lua chora Goteja, goteja agora Dos oitis do Boulevard!
Adeus, cigarra vadia, Que, mesmo em tua agonia, Cantavas para morrer. Tu viverás na saudade Da tua grande cidade Que não te há de esquecer...
Adeus, poeta do povo Que ressuscitas e novo Quando na morte descambas... Sinhô de pele mais clara No qual Sinhô encarnara A alma sonora dos sambas!
Toda a cidade soluça, Comovida se debruça Sobre o caixão de Noël... Estácio, Matriz, Salgueiro, Todo o Rio de Janeiro Consola Vila Isabel!(Versão gravada por Sylvio Caldas - 1951)
2. Minha Viola – 1929 (Noël Rosa)
Minha viola Tá chorando com razão Por causa duma marvada Que roubou meu coração. (BIS)
Eu não respeito Cantadô que é respeitado Que no samba improvisado Me quisé desafiá. Inda outro dia Fui cantá no galinheiro O galo andou o mês inteiro Sem vontade de cantá. Nesta cidade Todo o mundo se acautela Com a tal de febre amarela Que não cansa de matá, E a Dona Chica Que anda atrás de mau conselho Pinta o corpo de vermelho Pro amarelo não pegá.
Eu já jurei Não jogá com seu Saldanha Que diz sempre que me ganha No tal jogo do bilhá, Sapeca o taco Nas bola de tal maneira, Que eu espero a noite inteira Pras bola carambolá. Conheço um véio Que tem a grande mania De fazê economia Pra modelo de seus filho, Não usa prato, Nem moringa, nem caneca E quando senta é de cueca Pra não gastá os fundilho.
Eu tive um sogro Cansado dos regabofes Que procurou o Voronoff, Doutô muito creditado, E andam dizendo QUe o enxerto foi de gato Pois ele pula de quatro Miando pelos telhado. Adonde eu moro Tem o bloco dos filante Que quase que a todo instante Um cigarro vem filá E os danado Vem bancando inteligente Diz que tão com dô de dente Que o cigarro faz passá.
Minha viola...
3. Com que roupa? – 1929 (Noël Rosa)
Agora vou mudar minha conduta Eu vou pra luta, Pois eu quero me aprumar. Vou tratar você com a força bruta Pra poder me reabilitar, Pois esta vida não está sopa E eu pergunto: ‘Com que roupa?’ Com que roupa eu vou Pro samba que você me convidou? (BIS)
Agora eu não ando mais fagueiro, Pois o dinheiro Não é fácil de ganhar. Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro Não consigo ter nem pra gastar. Eu já corri de vento em popa Mas agora com que roupa? Com que roupa...
Eu hoje estou pulando como sapo Pra ver se escapo Desta praga de urubu. Já estou coberto de farrapo; Eu vou acabar ficando nu. Meu paletó virou estopa E eu nem sei mais com que roupa ... Com que roupa...
4. Coração – 1931 (Noël Rosa)
Coração, grande órgão propulsor, Distribuidor do sangue venoso e arterial, Coração, não és sentimental, Mas, entretanto dizem que és o cofre da paixão.
Coração, não estás do lado esquerdo, Nem tampouco do direito, Ficas no centro do peito, eis a verdade. Tu és pro bem-estar do nosso sangue O que a Casa de Correção É para o bem da humanidade.
Coração de sambista brasileiro Quando bate no pulmão Faz a batida do pandeiro. Eu afirmo, sem nenhuma pretensão, Que a paixão faz dor no crânio, Mas não ataca o coração. (versão corrigida)
5. Três Apitos – 1931 (Noël Rosa – gravação póstuma)
Quando o apito Da fábrica de tecidos Vem ferir os meus ouvidos, Eu me lembro de você. Mas você anda Sem dúvida bem zangada E está interessada Em fingir que não me vê.
Você que atende ao apito De uma chaminé de barro Por que não atende ao grito tão aflito Da buzina do meu carro?
Você no inverno Sem meias vai pro trabalho Não faz fé com agasalho, Nem no frio você crê, Mas você é mesmo Artigo que não se imita, Quando a fábrica apita Faz reclame de você.
Nos meus olhos você lê Que eu sofro cruelmente Com ciúmes do gerente impertinente Que dá ordens a você.
Sou do sereno, Poeta muito soturno. Vou virar guarda-noturno E você sabe por quê, Mas você não sabe Que, enquanto você faz pano, Faço junto do piano Estes versos pra você.
6. Gago Apaixonado – 1930 (Noël Rosa)
Mu... mu... mulher Em mim fi... fizeste um estrago. Eu de nervoso Esto... tou fi...fi... ficando gago. Não po... po...po...po...posso Com a cru ... cru...cru...crueldade Da saudade Que ... que... mal...maldade Vi...vi...vi... vivo sem afã... fago.
Tem... tem pe... pena Deste mo... mo... moribundo Que... que já já virou Va... va ... va... gabundo Só... só... só... só Por ter so... so... fri...frido Tu ... tu... tu... tu... tu... tu... tu... tu Tu tens um co... coração fingido!
Mu... mu... mulher...
Teu...co...o...ração Me entregaste De... de... pois... De mim tu... tu .to... toma... maste Tua fal... fal... fal... sidade É pro... pro...pro... fu... funda. Tu... tu... tu... tu... tu... tu... tu... tu Tu vais fi... fi... fi... ficar corcunda!
7. Filosofia – 1933 (Noël Rosa e André Filho)
O mundo me condena E ninguém tem pena Falando sempre mal do meu nome, Deixando de saber Se eu vou morrer de sede Ou se eu vou morrer de fome.
Mas a filosofia Hoje me auxilia A viver indiferente assim. Nesta prontidão sem fim, Vou fingindo que sou rico, Pra ninguém zombar de mim.
Não me incomodo que você me diga Que a sociedade é minha inimiga, Pois cantando neste mundo Vivo escravo do meu samba, Muito embora vagabundo.
Quanto a você Da aristocracia, Que tem dinheiro, Mas não compra alegria, Há de viver eternamente Sendo escrava dessa gente Que cultiva a hipocrisia.
8. Para me Livrar do Mal – 1932 (Noël, Ismael Silva e Francisco Alves)
Estou vivendo com você Num martírio sem igual Vou largar você de mão, Com razão, Para me livrar do mal.
Supliquei humildemente Pra você endireitar Mas agora infelizmente, Nosso amor tem que acabar. Vou-me embora afinal Você vai saber por quê. É pra me livrar do mal Que eu fujo de você.
Você teve a minha ajuda Sem pensar em trabalhar. Quem se zanga é que se muda E eu já tenho onde morar. Nunca mais você encontra Quem lhe faça o bem que eu fiz; Levei muito golpe contra; Passe bem, seja feliz.
9. Feitio de Oração – 1933 (Noël Rosa e Vadico)
Quem acha vive se perdendo Por isso agora eu vou me defendendo Da dor tão cruel desta saudade Que por infelicidade Meu pobre peito invade.
Batuque é um privilégio Ninguém aprende samba no colégio. Sambar é chorar de alegria, É sorrir de nostalgia Dentro da melodia.
Por isso agora Lá na Penha vou mandar Minha morena pra cantar Com satisfação E com harmonia Esta triste melodia Que é meu samba Em feitio de oração.
O samba, na realidade, Não vem do morro nem lá da cidade E quem suportar uma paixão Sentirá que o samba então Nasce no coração.
10. Onde Está a Honestidade? – 1932 (Noël Rosa)
Você tem palacete reluzente, Tem jóias e criados à vontade. Sem ter nenhuma herança nem parente, Só anda de automóvel na cidade...
E o povo já pergunta com maldade: ‘Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?’ (BIS)
O seu dinheiro nasce de repente, E, embora não se saiba se é verdade, Você acha na rua diariamente Anéis, dinheiro e até felicidade... E o povo...
Vassoura dos salões da sociedade Que varre o que encontra pela frente, Promove festivais de caridade Em nome de qualquer defunto ausente.
E o povo...
11. Quando o Samba Acabou – 1932 (Noël Rosa)
Lá no morro da Mangueira Bem em frente à ribanceira Uma cruz a gente vê Quem fincou foi a Rosinha Que é cabrocha de alta linha E nos olhos tem seu ‘não sei quê’.
Numa linda madrugada, Ao voltar da batucada, Pra dois malandros olhou a sorrir. Ela foi-se embora e os dois ficaram, Dias depois se encontraram pra conversar e discutir.
Lá no morro, uma luz somente havia: Era a lua que a tudo assistia Mas, quando acabava o samba, se escondia.
Na segunda batucada, Disputando a namorada, Foram os dois improvisar E, como em toda façanha, Sempre um perde e outro ganha, Um dos dois parou de versejar.
E, perdendo a doce amada, Foi fumar na encruzilhada, Ficando horas em meditação. Quando o sol raiou, foi encontrado Na ribanceira, estirado Com um punhal no coração.
Lá no morro, uma luz somente havia: Era o sol quando o samba acabou... De noite não houve lua, ninguém cantou...
Até amanhã, se Deus quiser, Se não chover, eu volto pra te ver, Oh, mulher! De ti gosto mais que outra qualquer. Não vou por gosto, O destino é quem quer.
Adeus é pra quem deixa a vida É sempre na certa em que eu jogo Três palavras vou gritar por despedida: 'Até amanhã! Até já! Até logo!'
O mundo é um samba em que eu danço, Sem nunca sair do meu trilho, Vou cantando o teu nome sem descanso, Pois do meu samba tu és o estribilho.
13. Não Tem Tradução – 1932 (Noël Rosa e Ismael Silva)
O cinema falado É o grande culpado Da transformação Dessa gente que sente Que um barracão Prende mais que um xadrez. Lá no morro, se eu fizer uma falseta, A Risoleta Desiste logo do francês e do inglês.
A gíria que o nosso morro criou Bem cedo a cidade aceitou e usou. Mais tarde o malandro deixou de sambar Dando pinote E só querendo dançar o fox-trot!
Essa gente hoje em dia Que tem a mania De exibição Não se lembra que o samba Não tem tradução No idioma francês. Tudo aquilo que o malandro pronuncia, Com voz macia, É brasileiro, já passou de português.
Amor lá no morro é amor pra chuchu, As rimas do samba não são I love you E esse negócio de ‘alô’, ‘alô, boy’, ‘Alô, Johnny’ Só pode ser conversa de telefone.
14. Mulher Indigesta – 1932 (Noël Rosa)
Mas que mulher indigesta! (indigesta!) Merece um tijolo na testa! (BIS)
Esta mulher não namora, Também não deixa mais ninguém namorar, É um bom center-half pra marcar Pois não deixa a linha chutar.
E quando se manifesta O que merece é entrar no açoite Ela é mais indigesta do que prato De salada de pepino à meia-noite.
Esta mulher é ladina, Toma dinheiro, é até chantagista, arrancou-me três dentes de platina E foi logo vender no dentista.
15. O Orvalho Vem Caindo – 1933 (Noël Rosa e Kid Pepe)
O orvalho vem caindo Vai molhar o meu chapéu E também já vão sumindo As estrelas lá no céu... Tenho passado tão mal: A minha cama é uma folha de jornal.
Meu cortinado é um vasto céu de anil E o meu despertador é o guarda-civil (Que o salário ainda não viu!)
O orvalho...
A minha terra dá banana e aipim. Meu trabalho é achar quem descasque por mim (Vivo triste mesmo assim!)
O orvalho...
A minha sopa não tem osso, nem tem sal. Se um dia passo bem, dois e três passo mal (Isso é muito natural!)
16. Seja Breve – 1933 (Noël Rosa)
Seja breve... (Seja breve!) Não percebi por que você se atreve A prolongar sua conversa mole (Que não adianta!) Seja breve... (Conversa de teso!) Não me amole! Senão acabo perdendo o controle E vou cobrar o tempo que você me deve.
Eu me ajoelho e fico de mãos postas Só para ver você virar as costas E quando vejo que você vai longe Eu comemoro a sua ausência com champanhe (Deus lhe acompanhe!)
A sua vida nem você escreve E além dizsso você tem mão leve. Eu só desejo é ver você nas grades Para dizer baixinho sem fazer alarde: 'Que Deus lhe guarde!'
Vou conservar a porta bem fechada, Com o cartaz: 'É proibida a entrada." E você passa a ser pessoa estranha. Meu bolso fica livre dos ataques seus. (Graças a Deus!)
17. Linda Pequena (Pastorinhas) – 1934 (Noël Rosa e João de Barro)
A estrela d’alva No céu desponta E a lua anda tonta Com tamanho esplendor E as moreninhas*, Pra consolo da lua, Vão cantando na rua Lindos versos de amor.
Linda pequena*, Pequena que tens a cor morena*, Tu não tens pena De mim Que vivo tonto com o teu olhar Linda criança, Tu não me sais da lembrança, Meu coração não se cansa De sempre e sempre te amar.
* Os trechos em itálico foram modificados por Braguinha, assim como o título, após a morte de Noël Rosa.
Segundo Ato
1. Seu Jacinto – 1933 (Noël Rosa)
O que eu sinto e não consinto É seu cinto se afrouxar. Seu Jacinto, aperta o cinto; Bota as calças no lugar. (BIS)
O seu Jacinto tinha que comprar feijão, Mas não tinha um só tostão E o caixeiro estava duro. Ele não gosta de pagar feijão à vista Porque, sendo futurista, Paga sempre no futuro.
O seu Jacinto que é cheio de chiquê Eu não sei dizer por que Dorme de cartola e fraque Anda dizendo que o seu sonho dourado É morrer esmigalhado Por um carro Cadillac.
O seu Jacinto já arranca a sobrancelha E só bebe mel de abelha Para ser um doce amor. A tia dele que até hoje é melindrosa Pra ser leve e vaporosa Toma banho de vapor.
Quando tem baile lá na casa da Thereza, Ela faz pano de mesa Com o lençol que cobre a cama Bota nos copos água usada na banheira, Depois diz à turma inteira Que é cerveja lá da Brahma.
2. Conversa de Botequim – 1935 (Noël Rosa e Vadico)
Seu garçom, faça o favor De me trazer depressa Uma boa média que não seja requentada, Um pão bem quente com manteiga à beça, Um guardanapo E um copo d’água bem gelada; Feche a porta da direita Com muito cuidado, Que eu não estou disposto A ficar exposto ao sol; Vá perguntar ao seu freguês do lado Qual foi o resultado do futebol.
Se você ficar limpando a mesa, Não me levanto, nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão Uma caneta, um tinteiro, Um envelope e um cartão. Não se esqueça de me dar palito E um cigarro pra espantar mosquitos. Vá dizer ao charuteiro Que me empreste umas revistas, Um isqueiro e um cinzeiro. Seu garçom...
Telefone ao menos uma vez Para 34.4333 E ordene ao seu Osório Que me mande um guarda-chuva Aqui pro nosso escritório. Seu garçom, me empreste algum dinheiro, Que eu deixei o meu com o bicheiro. Vá dizer ao seu gerente Que pendure esta despesa No cabide ali em frente.
3. Feitiço da Vila – 1934 (Noël Rosa e Vadico)
Quem nasce lá na Vila Nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos Do arvoredo E faz a lua nascer mais cedo.
Lá em Vila Isabel Quem é bacharel Não tem medo de bamba. São Paulo dá café, Minas dá leite E a Vila Isabel dá samba.
A Vila tem Um feitiço sem farofa, Sem vela e sem vintém Que nos faz bem. Tendo nome de princesa Transformou O samba Num feitiço decente Que prende a gente.
Quem nasce pra sambar Chora pra mamar Em ritmo de samba. Eu já saí de casa olhando a lua E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila É a nossa Vila, O berço dos folgados. Não há um cadeado no portão Pois lá na Vila Não há ladrão!
Eu sei tudo que faço, Sei por onde passo, Paixão não me aniquila, Mas tenho que dizer: ‘Modéstia à parte, meus senhores, Eu sou da Vila’.
4. Lenço no Pescoço - 1933 (Wilson Baptista)
Meu chapéu do lado, Tamanco arrastando, Lenço no pescoço, Navalha no bolso, Eu passo gingando, Provoco e desafio; Eu tenho orgulho Em ser tão vadio.
Sei que eles falam Deste meu proceder Eu vejo quem trabalha Andar no miserê Eu sou vadio Porque tive inclinação Eu me lembro, era criança Tirava samba-canção.
5. Rapaz Folgado – 1933 (Noël Rosa)
Deixa de arrastar o teu tamanco Pois tamanco nunca foi sandália E tira do pescoço o lenço branco, Compra sapato e gravata, Joga fora essa navalha que te atrapalha.
Com chapéu do lado deste rata; Da polícia quero que escapes Fazendo samba-canção, Já te dei papel e lápis, Arranja um amor e um violão.
Malandro é palavra derrotista Que só serve pra tirar Todo o valor do sambista. Proponho ao povo civilizado Não te chamar de malandro, E sim de rapaz folgado.
6. Mocinho da Vila (Wilson Baptista)
Você que é mocinho da Vila Fala muito em violão, Barracão e outras coisas mais. Se não quiser perder o nome, Cuide do seu microfone E deixe quem é malandro em paz.
Injusto é seu comentário. Fala de malandro quem é otário, Mas falando não se faz. Eu de lenço no pescoço Desacato e também tenho o meu cartaz.
7. Conversa Fiada - 1935 (Wilson Baptista)
É conversa fiada Dizerem que o samba Na Vila tem feitiço. Eu fui ver para crer E não vi nada disso. A Vila é tranqüila, Porém eu vos digo: ‘cuidado!’ Antes de irem dormir, Dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui na Vila ver o arvoredo se mexer E conhecer o berço dos folgados A lua nessa noite demorou tanto Me assassinaram um samba Veio daí o meu pranto.
8. Palpite Infeliz – 1935 (Noël Rosa)
Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz! Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz Que sempre souberam muito bem Que a Vila não quer abafar ninguém; Só quer mostrar que faz samba também.
Fazer poema lá na Vila é um brinquedo, Ao som do samba dança até o arvoredo. Eu já chamei você pra ver, Você não viu porque não quis. Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente Que tira samba, mas não quer tirar patente. Pra que ligar a quem não sabe Aonde tem o seu nariz? Quem é você que não sabe o que diz?
9. Pela Décima Vez – 1935 (Noël Rosa)
Jurei não mais amar Pela décima vez. Jurei não perdoar O que ela me fez. O costume é a força Que fala mais alto Do que a natureza E nos faz Dar prova de fraqueza.
Joguei meu cigarro no chão e pisei. Sem mais nenhum, Aquele mesmo apanhei E fumei. Através da fumaça, Neguei minha raça, Chorando a repetir: 'Ele é o veneno Que eu escolhi Para morrer sem sentir.
Senti que o meu coração Quis parar. Quando voltei, Escutei a vizinha falar Que ele, só de pirraça, Seguiu com o praça, Ficando lá no xadrez. Pela décima vez, Ele está inocente, Não sabe o que fez.
10. Pierrot Apaixonado – 1935 (Noël Rosa e Heitor dos Prazeres)
Um pierrô apaixonado Que vivia só cantando Por causa de uma colombina Acabou chorando, Acabou chorando. (BIS)
A Colombina entrou no botequim Bebeu, bebeu, saiu assim... assim, Dizendo: ‘Pierrô cacete, Vai tomar sorvete Com o Arlequim’.
Um grande amor tem sempre um triste fim. Com o Pierrô aconteceu assim: Levando esse grande chute Foi tomar vermute com amendoim.
11. De Babado – 1936 (Noël Rosa e João Mina)
De babado, sim, Meu amor ideal, Sem babado, não. (BIS)
Seu vestido de babado, Que é de fato alta-costura, Me fez sábado passado Ir a pé a Cascadura (E voltei de cara-dura)
Com um vestido de babado Que eu comprei lá em Paris Eu sambei num batizado; Não dei palpite infeliz. (Você não viu porque não quis!)
Quando eu ando a seu lado, Você sobe de valor, Seu vestido sem babado É você sem meu amor. (É assistência sem doutor)
Quando andei pela Bahia, Pesquei muito tubarão, Mas pesquei um bicho um dia Que comeu a embarcação: (Não era peixe, era dragão!)
Brasileiro diz ‘meu bem’ E francês diz ‘mon amour’. Você diz vale quem tem Muito dinheiro pra pagar meu point-à-jour (Eu ando sans l’argent toujours!)
Vou buscar um copo d’água Para dar à minha avó. Não vou de bonde porque tenho mágoa Não vou a pé porque você tem dó. (Vamos comprar um mossoró!)
Ouça:
12. Pra que Mentir? – 1937 (Noël Rosa e Vadico)
Pra que mentir Se tu ainda não tens Esse dom de saber iludir? Pra quê? Pra que mentir, Se não há necessidade de me trair?
Pra que mentir, Se tu ainda não tens A malícia de toda mulher? Pra que mentir, se eu sei Que gostas de outro Que te diz que não te quer?
Pra que mentir tanto assim Se tu sabes que eu já sei Que tu não gostas de mim? Se tu sabes que eu te quero Apesar de ser traído Pelo teu ódio sincero Ou por teu amor fingido?
13. O X do problema – 1936 (Noël Rosa)
Nasci no Estácio, Eu fui educada na roda de bamba E fui diplomada na escola de samba, Sou independente conforme se vê. Nasci no Estácio; O samba é a corda, eu sou a caçamba E não acredito que haja muamba Que possa fazer eu gostar de você.
Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá E felicidade maior neste mundo não há. Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema. Ser estrela é bem fácil; Sair do Estácio é que O X do problema.
Você tem vontade Que eu abandone o Largo do Estácio Pra ser a rainha de um grande palácio E dar um banquete uma vez por semana. Nasci no Estácio; Não posso mudar minha massa de sangue. Você pode crer que palmeira do Mangue Não vive na areia de Copacabana.
14. Cem mil-réis – 1936 (Noël Rosa e Vadico)
Você me pediu cem mil-réis Pra comprar um soirée E um tamborim. O organdi anda barato pra cachorro E um gato lá no morro Não é tão caro assim.
Não custa nada Preencher formalidade: Tamborim pra batucada, Soirée pra sociedade. Sou bem sensato. Seu pedido atendi: Já tenho a pele do gato, Falta o metro de organdi.
Sei que você Num dia faz um tamborim, Mas ninguém faz um soirée Com meio metro de cetim. De soirée Você num baile se destaca, Mas não quero mais você Porque não sei vestir casaca.
15. Cabrocha do Rocha – 193? (Noël Rosa e Sylvio Caldas)
Eu tenho uma cabrocha Que mora no Rocha E não relaxa. Sei que ela joga no bicho, Que dança maxixe, Que dá muita bolacha.
Tem um filho macho Com cara de tacho E, além disso, é coxo. Ele me faz de capacho; Qualquer dia eu racho Esse carneiro mocho.
16. Silêncio de Um Minuto – 1935 (Noël Rosa)
Não te vejo nem te escuto, O meu samba está de luto. Eu peço o silêncio de um minuto, Homenagem à história De um amor cheio de glória Que me pesa na memória.
Nosso amor cheio de glória, De prazer e de ilusão Foi vencido e a vitória Cabe à tua ingratidão. Tu cavaste a minha dor Com a pá do finfimento E cobriste o nosso amor Com a cal do esquecimento.
Teu silêncio absoluto Me obrigou a confessar Que o meu samba está de luto, Meu violão a soluçar Luto preto é vaidade Neste funeral de amor. O meu luto é a saudade E saudade não tem cor.
17. AEIOU – 1932 (Noël Rosa e Lamartine Babo)
A, e, i, o, u, Dabliú, dabliú, Na cartilha da Juju, Juju!
A Juju já sabe ler, A Juju sabe escrever Há dez anos na cartilha. A Juju já sabe ler, A Juju sabe escrever, Escreve sal com cê cedilha!
Sabe conta de somar, Sabe até multiplicar, Mas na divisão se enrasca. Outro dia fez um feio, Pois partindo um queijo ao meio Quis me dar somente a casaca!
Sabe História Natural, Sabe História Universal, Mas não sabe Geografia... Pois com um cabo se atracando Na bacia navegando... Foi pra Ásia e teve azia!
18. Dama do Cabaré – 1936 (Noël Rosa)
Foi num cabaré na Lapa Que eu conheci você, Fumando cigarro, Entornando champanhe no seu soirée. Dançamos um samba, Trocamos um tango por uma palestra. Só saímos de lá Meia hora depois de descer a orquestra.
Em frente à porta um bom carro nos esperava, Mas você se despediu e foi pra casa a pé. No outro dia lá nos Arcos eu andava À procura da dama do cabaré.
Eu não sei bem se chorei no momento em que lia A carta que eu recebi (não me lembro de quem). Você nela me dizia que quem é da boemia Usa e abusa da diplomacia, Mas não gosta de ninguém.
19. Provei – 1936 (Noël Rosa e Vadico)
Provei do amor todo o amargor que ele tem Então jurei nunca mais amar ninguém, Porém eu agora encontrei alguém Que me compreende e que me quer bem!
Quem fala mal do amor Não sabe a vida gozar; Quem maldiz a própria dor Tem amor, mas não sabe amar.
Nunca se deve jurar Não mais amar a ninguém; Ninguém pode evitar De se apaixonar por alguém.
20. Pela Primeira Vez – 1936 (Noël Rosa e Christovam de Alencar)
Pela primeira vez na vida Sou obrigado a confessar que amo alguém. Chorei quando ela deu a despedida; Ela, me vendo a chorar, chorou também. Meu Deus, faça de mim o que quiser, Mas não me faça perder o amor dessa mulher.
Na estação, na hora de partir o trem, Ela me vendo a chorar chorou também. Depois fiquei olhando uma janela, Até sumir numa curva o lenço dela.
Se meu amor não regressar, irei também À estação na hora de partir o trem. E nunca mais assisto a uma partida Pra não lembrar mais daquela despedida.
21. Só Pode Ser Você – 1935 (Noël Rosa e Vadico)
Compreendi seu gesto Você entrou naquele meu chalé modesto Porque pretendia Somente saber Qual era o dia Em que eu deixaria de viver. Mas eu estava fora; Você mandou lembranças e foi logo embora Sem dizer qual era O primeiro nome de tal visita, Mas cruel, Mais bonita que sincera E, pelas informações que recebi, Ceci, Essa ilustre visita era você Porque Não existe nesta vida Pessoa mais fingida Do que você.
22. Quem Ri Melhor – 1936 (Noël Rosa)
Pobre de quem já sofreu neste mundo A dor de um amor profundo. Eu vivo bem sem amar a ninguém, Ser infeliz é sofrer por alguém. Zombo de quem sofre assim. Quem me fez chorar hoje chora por mim Quem ri melhor é quem ri no fim. (BIS)
Felicidade é o vil metal quem dá, Honestidade ninguém sabe onde está, Acaba mal quem é ruim Pois quem me fez chorar hoje chora por mim, Quem ri melhor é quem ri no fim.
Sabendo disso eu não quero rir primeiro Pois o feitiço vira contra o feiticeiro. Eu vivo bem, pensando assim Pois quem me fez chorar hoje chora por mim Quem ri melhor é quem ri no fim.
23. Último Desejo – 1937 (Noël Rosa)
Nosso amor, que eu não esqueço E que teve o seu começo Numa festa de São João, Morre hoje sem foguete, Sem retrato e sem bilhete, Sem luar, sem violão.
Perto de você me calo; Tudo penso e nada falo, Tenho medo de chorar. Nunca mais quero seu beijo, Mas meu último desejo Você não pode negar.
Se alguma pessoa amiga Pedir que você lhe diga Se você me quer ou não, Diga que você me adora, Que você lamenta e chora A nossa separação. Às pessoas que eu detesto Diga sempre que eu não presto, Que meu lar é o botequim, Que eu arruinei sua vida, Que eu não mereço a comida Que você pagou pra mim.
24. Fita Amarela – 1932 (Noël Rosa)
Quando eu morrer Não quero choro nem vela; Quero uma fita amarela Gravada com o nome dela.
Se existe alma, Se há outra encarnação, Eu queria que a mulata Sapateasse no meu caixão.
Não quero flores, Nem coroa de espinho; Só quero choro de flauta, Violão e cavaquinho.
Estou contente, Consolado por saber Que as morenas tão formosas A terra um dia vai comer.
Não tenho herdeiros, Não possuo um só vintém. Eu vivi devendo a todos, Mas não paguei nada a ninguém.
Meus inimigos, Que hoje falam mal de mim, Vão dizer que nunca viram Uma pessoa tão boa assim.
Quero que o sol Não visite o meu caixão Para a minha pobre alma Não morrer de insolação.
25. Adeus – 1931 (Noël Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves)
Adeus, adeus, adeus... Palavra que faz chorar Adeus, adeus, adeus... Não há quem possa suportar.
Adeus é bem triste Que não se resiste. Ninguém jamais Com adeus pode viver em paz. (Foi o último adeus...)
Pra que foste embora? Por ti tudo chora! Sem teu amor Esta vida não tem mais valor (Foi o último adeus...)