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# #
Letras das Músicas

Veja aqui quais são as músicas executadas durante o espetáculo: 38 de Noël Rosa, 3 de Wilson Baptista e 1 de Sylvio Caldas. Para ler a letra original na íntegra, clique sobre o título de cada uma.

Primeiro Ato

1. Violões em Funeral (Sylvio Caldas e Sebastião Fonseca)

Vila Isabel veste luto.
Pelas esquinas escuto
Violões em funeral...
Choram bordões, choram primas,
Soluçam todas as rimas
Numa saudade imortal!

Entre as nuvens escondida
Como de crepe vestida
A lua fica a chorar...
E o pranto que a lua chora
Goteja, goteja agora
Dos oitis do Boulevard!

Adeus, cigarra vadia,
Que, mesmo em tua agonia,
Cantavas para morrer.
Tu viverás na saudade
Da tua grande cidade
Que não te há de esquecer...

Adeus, poeta do povo
Que ressuscitas e novo
Quando na morte descambas...
Sinhô de pele mais clara
No qual Sinhô encarnara
A alma sonora dos sambas!

Toda a cidade soluça,
Comovida se debruça
Sobre o caixão de Noël...
Estácio, Matriz, Salgueiro,
Todo o Rio de Janeiro
Consola Vila Isabel! (Versão gravada por Sylvio Caldas - 1951)

2. Minha Viola – 1929 (Noël Rosa)

Minha viola
Tá chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração. (BIS)

Eu não respeito
Cantadô que é respeitado
Que no samba improvisado
Me quisé desafiá.
Inda outro dia
Fui cantá no galinheiro
O galo andou o mês inteiro
Sem vontade de cantá.
Nesta cidade
Todo o mundo se acautela
Com a tal de febre amarela
Que não cansa de matá,
E a Dona Chica
Que anda atrás de mau conselho
Pinta o corpo de vermelho
Pro amarelo não pegá.

Eu já jurei
Não jogá com seu Saldanha
Que diz sempre que me ganha
No tal jogo do bilhá,
Sapeca o taco
Nas bola de tal maneira,
Que eu espero a noite inteira
Pras bola carambolá.
Conheço um véio
Que tem a grande mania
De fazê economia
Pra modelo de seus filho,
Não usa prato,
Nem moringa, nem caneca
E quando senta é de cueca
Pra não gastá os fundilho.

Eu tive um sogro
Cansado dos regabofes
Que procurou o Voronoff,
Doutô muito creditado,
E andam dizendo
QUe o enxerto foi de gato
Pois ele pula de quatro
Miando pelos telhado.
Adonde eu moro
Tem o bloco dos filante
Que quase que a todo instante
Um cigarro vem filá
E os danado
Vem bancando inteligente
Diz que tão com dô de dente
Que o cigarro faz passá.

Minha viola...

3. Com que roupa? – 1929 (Noël Rosa)

Agora vou mudar minha conduta
Eu vou pra luta,
Pois eu quero me aprumar.
Vou tratar você com a força bruta
Pra poder me reabilitar,
Pois esta vida não está sopa
E eu pergunto: ‘Com que roupa?’
Com que roupa eu vou
Pro samba que você me convidou? (BIS)

Agora eu não ando mais fagueiro,
Pois o dinheiro
Não é fácil de ganhar.
Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro
Não consigo ter nem pra gastar.
Eu já corri de vento em popa
Mas agora com que roupa?
Com que roupa...

Eu hoje estou pulando como sapo
Pra ver se escapo
Desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo;
Eu vou acabar ficando nu.
Meu paletó virou estopa
E eu nem sei mais com que roupa ...
Com que roupa...

4. Coração – 1931 (Noël Rosa)

Coração, grande órgão propulsor,
Distribuidor do sangue venoso e arterial,
Coração, não és sentimental,
Mas, entretanto dizem que és o cofre da paixão.

Coração, não estás do lado esquerdo,
Nem tampouco do direito,
Ficas no centro do peito, eis a verdade.
Tu és pro bem-estar do nosso sangue
O que a Casa de Correção
É para o bem da humanidade.

Coração de sambista brasileiro
Quando bate no pulmão
Faz a batida do pandeiro.
Eu afirmo, sem nenhuma pretensão,
Que a paixão faz dor no crânio,
Mas não ataca o coração. (versão corrigida)

5. Três Apitos – 1931 (Noël Rosa – gravação póstuma)

Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos,
Eu me lembro de você.
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê.

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho,
Nem no frio você crê,
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita,
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você.

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você.

Sou do sereno,
Poeta muito soturno.
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê,
Mas você não sabe
Que, enquanto você faz pano,
Faço junto do piano
Estes versos pra você.

6. Gago Apaixonado – 1930 (Noël Rosa)

Mu... mu... mulher
Em mim fi... fizeste um estrago.
Eu de nervoso
Esto... tou fi...fi... ficando gago.
Não po... po...po...po...posso
Com a cru ... cru...cru...crueldade
Da saudade
Que ... que... mal...maldade
Vi...vi...vi... vivo sem afã... fago.

Tem... tem pe... pena
Deste mo... mo... moribundo
Que... que já já virou
Va... va ... va... gabundo
Só... só... só... só
Por ter so... so... fri...frido
Tu ... tu... tu... tu... tu... tu... tu... tu
Tu tens um co... coração fingido!

Mu... mu... mulher...

Teu...co...o...ração
Me entregaste
De... de... pois...
De mim tu... tu .to... toma... maste
Tua fal... fal... fal... sidade
É pro... pro...pro... fu... funda.
Tu... tu... tu... tu... tu... tu... tu... tu
Tu vais fi... fi... fi... ficar corcunda!

7. Filosofia – 1933 (Noël Rosa e André Filho)

O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome,
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se eu vou morrer de fome.

Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim.
Nesta prontidão sem fim,
Vou fingindo que sou rico,
Pra ninguém zombar de mim.

Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga,
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba,
Muito embora vagabundo.

Quanto a você
Da aristocracia,
Que tem dinheiro,
Mas não compra alegria,
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva a hipocrisia.

8. Para me Livrar do Mal – 1932 (Noël, Ismael Silva e Francisco Alves)

Estou vivendo com você
Num martírio sem igual
Vou largar você de mão,
Com razão,
Para me livrar do mal.

Supliquei humildemente
Pra você endireitar
Mas agora infelizmente,
Nosso amor tem que acabar.
Vou-me embora afinal
Você vai saber por quê.
É pra me livrar do mal
Que eu fujo de você.

Você teve a minha ajuda
Sem pensar em trabalhar.
Quem se zanga é que se muda
E eu já tenho onde morar.
Nunca mais você encontra
Quem lhe faça o bem que eu fiz;
Levei muito golpe contra;
Passe bem, seja feliz.

9. Feitio de Oração – 1933 (Noël Rosa e Vadico)

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade.

Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio.
Sambar é chorar de alegria,
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia.

Por isso agora
Lá na Penha vou mandar
Minha morena pra cantar
Com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba
Em feitio de oração.

O samba, na realidade,
Não vem do morro nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce no coração.

10. Onde Está a Honestidade? – 1932 (Noël Rosa)

Você tem palacete reluzente,
Tem jóias e criados à vontade.
Sem ter nenhuma herança nem parente,
Só anda de automóvel na cidade...

E o povo já pergunta com maldade:
‘Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?’ (BIS)

O seu dinheiro nasce de repente,
E, embora não se saiba se é verdade,
Você acha na rua diariamente
Anéis, dinheiro e até felicidade...
E o povo...

Vassoura dos salões da sociedade
Que varre o que encontra pela frente,
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente.

E o povo...

11. Quando o Samba Acabou – 1932 (Noël Rosa)

Lá no morro da Mangueira
Bem em frente à ribanceira
Uma cruz a gente vê
Quem fincou foi a Rosinha
Que é cabrocha de alta linha
E nos olhos tem seu ‘não sei quê’.

Numa linda madrugada,
Ao voltar da batucada,
Pra dois malandros olhou a sorrir.
Ela foi-se embora e os dois ficaram,
Dias depois se encontraram pra conversar e discutir.

Lá no morro, uma luz somente havia:
Era a lua que a tudo assistia
Mas, quando acabava o samba, se escondia.

Na segunda batucada,
Disputando a namorada,
Foram os dois improvisar
E, como em toda façanha,
Sempre um perde e outro ganha,
Um dos dois parou de versejar.

E, perdendo a doce amada,
Foi fumar na encruzilhada,
Ficando horas em meditação.
Quando o sol raiou, foi encontrado
Na ribanceira, estirado
Com um punhal no coração.

Lá no morro, uma luz somente havia:
Era o sol quando o samba acabou...
De noite não houve lua, ninguém cantou...

Mário Reis - Quando O Samba Acabou
12. Até Amanhã – 1932 (Noël Rosa)

Até amanhã, se Deus quiser,
Se não chover, eu volto pra te ver,
Oh, mulher!
De ti gosto mais que outra qualquer.
Não vou por gosto,
O destino é quem quer.

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa em que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida:
'Até amanhã! Até já! Até logo!'

O mundo é um samba em que eu danço,
Sem nunca sair do meu trilho,
Vou cantando o teu nome sem descanso,
Pois do meu samba tu és o estribilho. 

13. Não Tem Tradução – 1932 (Noël Rosa e Ismael Silva)

O cinema falado
É o grande culpado
Da transformação
Dessa gente que sente
Que um barracão
Prende mais que um xadrez.
Lá no morro, se eu fizer uma falseta,
A Risoleta
Desiste logo do francês e do inglês.

A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou.
Mais tarde o malandro deixou de sambar
Dando pinote
E só querendo dançar o fox-trot!

Essa gente hoje em dia
Que tem a mania
De exibição
Não se lembra que o samba
Não tem tradução
No idioma francês.
Tudo aquilo que o malandro pronuncia,
Com voz macia,
É brasileiro, já passou de português.

Amor lá no morro é amor pra chuchu,
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de ‘alô’, ‘alô, boy’,
‘Alô, Johnny
Só pode ser conversa de telefone.

14. Mulher Indigesta – 1932 (Noël Rosa)

Mas que mulher indigesta! (indigesta!)
Merece um tijolo na testa! (BIS)

Esta mulher não namora,
Também não deixa mais ninguém namorar,
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar.

E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite.

Esta mulher é ladina,
Toma dinheiro, é até chantagista,
arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista.

15. O Orvalho Vem Caindo – 1933 (Noël Rosa e Kid Pepe)

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também já vão sumindo
As estrelas lá no céu...
Tenho passado tão mal:
A minha cama é uma folha de jornal.

Meu cortinado é um vasto céu de anil
E o meu despertador é o guarda-civil
(Que o salário ainda não viu!)

O orvalho...

A minha terra dá banana e aipim.
Meu trabalho é achar quem descasque por mim
(Vivo triste mesmo assim!)

O orvalho...

A minha sopa não tem osso, nem tem sal.
Se um dia passo bem, dois e três passo mal
(Isso é muito natural!)

16. Seja Breve – 1933 (Noël Rosa)

Seja breve... (Seja breve!)
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
(Que não adianta!)
Seja breve... (Conversa de teso!)
Não me amole!
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve.

Eu me ajoelho e fico de mãos postas
Só para ver você virar as costas
E quando vejo que você vai longe
Eu comemoro a sua ausência com champanhe
(Deus lhe acompanhe!)

A sua vida nem você escreve
E além dizsso você tem mão leve.
Eu só desejo é ver você nas grades
Para dizer baixinho sem fazer alarde:
'Que Deus lhe guarde!'

Vou conservar a porta bem fechada,
Com o cartaz: 'É proibida a entrada."
E você passa a ser pessoa estranha.
Meu bolso fica livre dos ataques seus.
(Graças a Deus!)

17. Linda Pequena (Pastorinhas) – 1934 (Noël Rosa e João de Barro)

A estrela d’alva
No céu desponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor
E as moreninhas*,
Pra consolo da lua,
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor.

Linda pequena*,
Pequena que tens a cor morena*,
Tu não tens pena
De mim
Que vivo tonto com o teu olhar
Linda criança,
Tu não me sais da lembrança,
Meu coração não se cansa
De sempre e sempre te amar.

* Os trechos em itálico foram modificados por Braguinha, assim como o título, após a morte de Noël Rosa.

 

Segundo Ato

1. Seu Jacinto – 1933 (Noël Rosa)

O que eu sinto e não consinto
É seu cinto se afrouxar.
Seu Jacinto, aperta o cinto;
Bota as calças no lugar. (BIS)

O seu Jacinto tinha que comprar feijão,
Mas não tinha um só tostão
E o caixeiro estava duro.
Ele não gosta de pagar feijão à vista
Porque, sendo futurista,
Paga sempre no futuro.

O seu Jacinto que é cheio de chiquê
Eu não sei dizer por que
Dorme de cartola e fraque
Anda dizendo que o seu sonho dourado
É morrer esmigalhado
Por um carro Cadillac.

O seu Jacinto já arranca a sobrancelha
E só bebe mel de abelha
Para ser um doce amor.
A tia dele que até hoje é melindrosa
Pra ser leve e vaporosa
Toma banho de vapor.

Quando tem baile lá na casa da Thereza,
Ela faz pano de mesa
Com o lençol que cobre a cama
Bota nos copos água usada na banheira,
Depois diz à turma inteira
Que é cerveja lá da Brahma.

2. Conversa de Botequim – 1935 (Noël Rosa e Vadico)

Seu garçom, faça o favor
De me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo
E um copo d’água bem gelada;
Feche a porta da direita
Com muito cuidado,
Que eu não estou disposto
A ficar exposto ao sol;
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol.

Se você ficar limpando a mesa,
Não me levanto, nem pago a despesa.
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão.
Não se esqueça de me dar palito
E um cigarro pra espantar mosquitos.
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas,
Um isqueiro e um cinzeiro.
Seu garçom...

Telefone ao menos uma vez
Para 34.4333
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório.
Seu garçom, me empreste algum dinheiro,
Que eu deixei o meu com o bicheiro.
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente.

3. Feitiço da Vila – 1934 (Noël Rosa e Vadico)
Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo.

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba.

A Vila tem
Um feitiço sem farofa,
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem.
Tendo nome de princesa
Transformou
O samba
Num feitiço decente
Que prende a gente.

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.

A zona mais tranqüila
É a nossa Vila,
O berço dos folgados.
Não há um cadeado no portão
Pois lá na Vila
Não há ladrão!

Eu sei tudo que faço,
Sei por onde passo,
Paixão não me aniquila,
Mas tenho que dizer:
‘Modéstia à parte, meus senhores,
Eu sou da Vila’.
4. Lenço no Pescoço - 1933 (Wilson Baptista)

Meu chapéu do lado,
Tamanco arrastando,
Lenço no pescoço,
Navalha no bolso,
Eu passo gingando,
Provoco e desafio;
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio.

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção.

5. Rapaz Folgado – 1933 (Noël Rosa)
Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco,
Compra sapato e gravata,
Joga fora essa navalha que te atrapalha.

Com chapéu do lado deste rata;
Da polícia quero que escapes
Fazendo samba-canção,
Já te dei papel e lápis,
Arranja um amor e um violão.

Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista.
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro,
E sim de rapaz folgado.
6. Mocinho da Vila (Wilson Baptista)

Você que é mocinho da Vila
Fala muito em violão,
Barracão e outras coisas mais.
Se não quiser perder o nome,
Cuide do seu microfone
E deixe quem é malandro em paz.

Injusto é seu comentário.
Fala de malandro quem é otário,
Mas falando não se faz.
Eu de lenço no pescoço
Desacato e também tenho o meu cartaz.

7. Conversa Fiada - 1935 (Wilson Baptista)

É conversa fiada
Dizerem que o samba
Na Vila tem feitiço.
Eu fui ver para crer
E não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
Porém eu vos digo: ‘cuidado!’
Antes de irem dormir,
Dêem duas voltas no cadeado.

Eu fui na Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados
A lua nessa noite demorou tanto
Me assassinaram um samba
Veio daí o meu pranto.

8. Palpite Infeliz – 1935 (Noël Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém;
Só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo,
Ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
Você não viu porque não quis.
Quem é você que não sabe o que diz?

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba, mas não quer tirar patente.
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

9. Pela Décima Vez – 1935 (Noël Rosa)

Jurei não mais amar
Pela décima vez.
Jurei não perdoar 
O que ela me fez.
O costume é a força 
Que fala mais alto
Do que a natureza
E nos faz
Dar prova de fraqueza.

Joguei meu cigarro no chão e pisei.
Sem mais nenhum,
Aquele mesmo apanhei
E fumei.
Através da fumaça,
Neguei minha raça,
Chorando a repetir:
'Ele é o veneno
Que eu escolhi
Para morrer sem sentir.

Senti que o meu coração
Quis parar.
Quando voltei,
Escutei a vizinha falar
Que ele, só de pirraça,
Seguiu com o praça,
Ficando lá no xadrez.
Pela décima vez,
Ele está inocente,
Não sabe o que fez.

10. Pierrot Apaixonado – 1935 (Noël Rosa e Heitor dos Prazeres)

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando,
Acabou chorando. (BIS)

A Colombina entrou no botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim... assim,
Dizendo: ‘Pierrô cacete,
Vai tomar sorvete
Com o Arlequim’.

Um grande amor tem sempre um triste fim.
Com o Pierrô aconteceu assim:
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim.

11. De Babado – 1936 (Noël Rosa e João Mina)

De babado, sim,
Meu amor ideal,
Sem babado, não. (BIS)

Seu vestido de babado,
Que é de fato alta-costura,
Me fez sábado passado
Ir a pé a Cascadura
(E voltei de cara-dura)

Com um vestido de babado
Que eu comprei lá em Paris
Eu sambei num batizado;
Não dei palpite infeliz.
(Você não viu porque não quis!)

Quando eu ando a seu lado,
Você sobe de valor,
Seu vestido sem babado
É você sem meu amor.
(É assistência sem doutor)

Quando andei pela Bahia,
Pesquei muito tubarão,
Mas pesquei um bicho um dia
Que comeu a embarcação:
(Não era peixe, era dragão!)

Brasileiro diz ‘meu bem’
E francês diz ‘mon amour’.
Você diz vale quem tem
Muito dinheiro pra pagar meu point-à-jour
(Eu ando sans l’argent toujours!)

Vou buscar um copo d’água
Para dar à minha avó.
Não vou de bonde porque tenho mágoa
Não vou a pé porque você tem dó.
(Vamos comprar um mossoró!)

  • Ouça:
12. Pra que Mentir? – 1937 (Noël Rosa e Vadico)

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê? Pra que mentir,
Se não há necessidade de me trair?

Pra que mentir,
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir, se eu sei
Que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?

13. O X do problema – 1936 (Noël Rosa)

Nasci no Estácio,
Eu fui educada na roda de bamba
E fui diplomada na escola de samba,
Sou independente conforme se vê.
Nasci no Estácio;
O samba é a corda, eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer eu gostar de você.

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há.
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema.
Ser estrela é bem fácil;
Sair do Estácio é que
O X do problema.

Você tem vontade
Que eu abandone o Largo do Estácio
Pra ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana.
Nasci no Estácio;
Não posso mudar minha massa de sangue.
Você pode crer que palmeira do Mangue
Não vive na areia de Copacabana.

14. Cem mil-réis – 1936 (Noël Rosa e Vadico)
Você me pediu cem mil-réis
Pra comprar um soirée
E um tamborim.
O organdi anda barato pra cachorro
E um gato lá no morro
Não é tão caro assim.

Não custa nada
Preencher formalidade:
Tamborim pra batucada,
Soirée pra sociedade.
Sou bem sensato.
Seu pedido atendi:
Já tenho a pele do gato,
Falta o metro de organdi.

Sei que você
Num dia faz um tamborim,
Mas ninguém faz um soirée
Com meio metro de cetim.
De soirée
Você num baile se destaca,
Mas não quero mais você
Porque não sei vestir casaca.
15. Cabrocha do Rocha – 193? (Noël Rosa e Sylvio Caldas)

Eu tenho uma cabrocha
Que mora no Rocha
E não relaxa.
Sei que ela joga no bicho,
Que dança maxixe,
Que dá muita bolacha.

Tem um filho macho
Com cara de tacho
E, além disso, é coxo.
Ele me faz de capacho;
Qualquer dia eu racho
Esse carneiro mocho.

16. Silêncio de Um Minuto – 1935 (Noël Rosa)

Não te vejo nem te escuto,
O meu samba está de luto.
Eu peço o silêncio de um minuto,
Homenagem à história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória.

Nosso amor cheio de glória,
De prazer e de ilusão
Foi vencido e a vitória
Cabe à tua ingratidão.
Tu cavaste a minha dor
Com a pá do finfimento
E cobriste o nosso amor
Com a cal do esquecimento.

Teu silêncio absoluto
Me obrigou a confessar
Que o meu samba  está de luto,
Meu violão a soluçar
Luto preto é vaidade
Neste funeral de amor.
O meu luto é a saudade
E saudade não tem cor.

17. AEIOU – 1932 (Noël Rosa e Lamartine Babo)

A, e, i, o, u,
Dabliú, dabliú,
Na cartilha da Juju,
Juju!

A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha.
A Juju já sabe ler,
A Juju sabe escrever,
Escreve sal com cê cedilha!

Sabe conta de somar,
Sabe até multiplicar,
Mas na divisão se enrasca.
Outro dia fez um feio,
Pois partindo um queijo ao meio
Quis me dar somente a casaca!

Sabe História Natural,
Sabe História Universal,
Mas não sabe Geografia...
Pois com um cabo se atracando
Na bacia navegando...
Foi pra Ásia e teve azia!

18. Dama do Cabaré – 1936 (Noël Rosa)

Foi num cabaré na Lapa
Que eu conheci você,
Fumando cigarro,
Entornando champanhe no seu soirée.
Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra.
Só saímos de lá
Meia hora depois de descer a orquestra.

Em frente à porta um bom carro nos esperava,
Mas você se despediu e foi pra casa a pé.
No outro dia lá nos Arcos eu andava
À procura da dama do cabaré.

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que eu recebi (não me lembro de quem).
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia,
Mas não gosta de ninguém.

19. Provei – 1936 (Noël Rosa e Vadico)
Provei do amor todo o amargor que ele tem
Então jurei nunca mais amar ninguém,
Porém eu agora encontrei alguém
Que me compreende e que me quer bem!

Quem fala mal do amor
Não sabe a vida gozar;
Quem maldiz a própria dor
Tem amor, mas não sabe amar.

Nunca se deve jurar
Não mais amar a ninguém;
Ninguém pode evitar
De se apaixonar por alguém.
20. Pela Primeira Vez – 1936 (Noël Rosa e Christovam de Alencar)
Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém.
Chorei quando ela deu a despedida;
Ela, me vendo a chorar, chorou também.
Meu Deus, faça de mim o que quiser,
Mas não me faça perder o amor dessa mulher.

Na estação, na hora de partir o trem,
Ela me vendo a chorar chorou também.
Depois fiquei olhando uma janela,
Até sumir numa curva o lenço dela.

Se meu amor não regressar, irei também
À estação na hora de partir o trem.
E nunca mais assisto a uma partida
Pra não lembrar mais daquela despedida.
21. Só Pode Ser Você – 1935 (Noël Rosa e Vadico)

Compreendi seu gesto
Você entrou naquele meu chalé modesto
Porque pretendia
Somente saber
Qual era o dia
Em que eu deixaria de viver.
Mas eu estava fora;
Você mandou lembranças e foi logo embora
Sem dizer qual era 
O primeiro nome de tal visita,
Mas cruel,
Mais bonita que sincera
E, pelas informações que recebi,
Ceci,
Essa ilustre visita era você
Porque
Não existe nesta vida
Pessoa mais fingida
Do que você.

22. Quem Ri Melhor – 1936 (Noël Rosa)
Pobre de quem já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo.
Eu vivo bem sem amar a ninguém,
Ser infeliz é sofrer por alguém.
Zombo de quem sofre assim.
Quem me fez chorar hoje chora por mim
Quem ri melhor é quem ri no fim. (BIS)

Felicidade é o vil metal quem dá,
Honestidade ninguém sabe onde está,
Acaba mal quem é ruim
Pois quem me fez chorar hoje chora por mim,
Quem ri melhor é quem ri no fim.

Sabendo disso eu não quero rir primeiro
Pois o feitiço vira contra o feiticeiro.
Eu vivo bem, pensando assim
Pois quem me fez chorar hoje chora por mim
Quem ri melhor é quem ri no fim.
23. Último Desejo – 1937 (Noël Rosa)

Nosso amor, que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete,
Sem retrato e sem bilhete,
Sem luar, sem violão.

Perto de você me calo;
Tudo penso e nada falo,
Tenho medo de chorar.
Nunca mais quero seu beijo,
Mas meu último desejo
Você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não,
Diga que você me adora,
Que você lamenta e chora
A nossa separação.
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto,
Que meu lar é o botequim,
Que eu arruinei sua vida,
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim.

24. Fita Amarela – 1932 (Noël Rosa)

Quando eu morrer
Não quero choro nem vela;
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela.

Se existe alma,
Se há outra encarnação,
Eu queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão.

Não quero flores,
Nem coroa de espinho;
Só quero choro de flauta,
Violão e cavaquinho.

Estou contente,
Consolado por saber
Que as morenas tão formosas
A terra um dia vai comer.

Não tenho herdeiros,
Não possuo um só vintém.
Eu vivi devendo a todos,
Mas não paguei nada a ninguém.

Meus inimigos,
Que hoje falam mal de mim,
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão boa assim.

Quero que o sol
Não visite o meu caixão
Para a minha pobre alma
Não morrer de insolação.

25. Adeus – 1931 (Noël Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves)

Adeus, adeus, adeus...
Palavra que faz chorar
Adeus, adeus, adeus...
Não há quem possa suportar.

Adeus é bem triste
Que não se resiste.
Ninguém jamais
Com adeus pode viver em paz.
(Foi o último adeus...)

Pra que foste embora?
Por ti tudo chora!
Sem teu amor
Esta vida não tem mais valor
(Foi o último adeus...)

 

 

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